O que se observa em cada fase
Um eclipse solar é um fenómeno progressivo composto por várias etapas em que a geometria entre o Sol, a Lua e a Terra se altera continuamente. Cada fase corresponde a um contacto específico entre os discos solar e lunar oferecendo oportunidades distintas de observação. Compreender a dinâmica de cada momento, dá-nos a possibilidade de interpretar com maior profundidade os fenómenos ópticos, solares e atmosféricos que se manifestam durante um eclipse.
O primeiro contacto ocorre quando o “limbo” da Lua inicia a sua interposição com o disco solar. Nesta fase, apenas uma fração da fotosfera começa a ser ocultada e o decréscimo de luminosidade é impercetível para o olho humano. Através da observação com telescópios (que tenham filtros especiais adequados) é possível distinguir com precisão o perfil do limbo lunar e observar manchas solares existentes na fotosfera, que se tornam particularmente contrastantes à medida que a área iluminada diminui. À medida que o eclipse parcial progride, a percentagem do disco solar encoberto aumenta e começam a surgir alterações mensuráveis na luminosidade atmosférica. A intensidade luminosa decresce de forma não linear, uma vez que a fotosfera é responsável pela quase totalidade do fluxo radiativo que atinge a Terra. A luz ambiente adquire um tom mais frio devido à redução de parte do espectro contínuo emitido pelo Sol e fenómenos ópticos dão uma nitidez mais acentuada às sombras em resultado da diminuição da dispersão da luz difusa. Neste período surgem projeções múltiplas do disco solar através de pequenas aberturas naturais ou artificiais, que funcionam como câmaras estenopeicas e projetam imagens crescentes do Sol parcialmente encoberto. São um bom exemplo para observação as folhas das árvores.


Com a aproximação do segundo contacto, que marca o início da totalidade, a luminosidade ambiente cai de forma mais abrupta, aproximando-se das condições de crepúsculo civil. Esta transição desencadeia dois fenómenos característicos. Um deles são as chamadas contas de Baily que resultam da passagem dos últimos feixes de luz solar através dos vales do relevo lunar criando pontos intensos de brilho na extremidade do disco. Outro fenómeno é o designado como anel de diamante que ocorre quando apenas um ponto da fotosfera permanece visível, produzindo um contraste extremo entre o brilho residual e a coroa solar que começa a emergir. A fase de totalidade, que corresponde ao terceiro contacto, é o único período do eclipse em que a observação direta a olho nú do Sol é segura, dado que a fotosfera se encontra completamente ocultada. Neste momento torna-se visível a coroa solar, uma estrutura de plasma extremamente quente, com temperaturas da ordem de um a três milhões de graus, e cuja configuração é fortemente influenciada pelas linhas do campo magnético solar. Podem ser observadas proeminências, raios da coroa solar, filamentos solares e estruturas mais complexas que dependem do estado do ciclo solar. A cromosfera manifesta-se como um delicado halo rosado devido à emissão da linha H-alfa do hidrogénio, sobretudo nos instantes iniciais e finais desta fase. Em períodos de elevada atividade magnética, protuberâncias solares elevam-se da superfície, formando arcos ou jatos de plasma que ficam claramente recortados contra o fundo escurecido do céu. Durante a fase de totalidade, o horizonte apresenta-se com uma luminosidade estranha e pouco comum, uma vez que fora do corredor de sombra a fotosfera permanece visível para outras regiões da Terra, criando um contraste direcional característico. Regista-se ainda uma queda rápida da temperatura atmosférica e alterações comportamentais na fauna, que reage à súbita redução de luz como se se tratasse de um anoitecer acelerado. Quando o quarto contacto ocorre e a fotosfera reaparece, mesmo que num ponto ínfimo, deixa de ser seguro observar o eclipse sem proteção. O fim da totalidade reproduz novamente o anel de diamante e as contas de Baily, agora em sentido inverso. A partir deste momento o eclipse regressa à fase parcial e a iluminação aumenta gradualmente, recuperando a sua intensidade e espectro habituais. Os fenómenos ópticos observáveis são semelhantes aos da aproximação inicial, incluindo projeções estenopeicas e a visualização detalhada do bordo lunar com recurso a equipamentos filtrados.O quarto contacto final marca o termo do eclipse, assinalando o instante em que o disco lunar deixa por completo de cobrir o disco solar. A partir desse momento, a observação do Sol volta a requerer outra vez os mesmos cuidados que em qualquer dia comum, incluindo a utilização de filtros apropriados sempre que se recorra a instrumentos ópticos.

